Capítulo 9: E HOJE? O que discutimos?

E HOJE?

O físico Stephen Hawking anunciou em 2011, na badalada conferência Zeitgeist, do Google, que a filosofia está morta. “A maioria de nós em algum momento se pergunta: por que estamos aqui? De onde viemos? Tradicionalmente, essas são questões para a filosofia, mas a filosofia está morta”, vaticinou um dos mais brilhantes cientistas da atualidade. “Filósofos não conseguem estar a par do desenvolvimento moderno da ciência, particularmente da física”, disse, sem piedade. Para Hawking, a filosofia do século 21 é aquele garoto que chegou à festa depois que os convidados haviam ido embora.

Apesar de causar mal-estar entre filósofos badalados, como o esloveno Slavoj Zizek, a cutucada de Hawking não é nova. Desde o século 19, a morte da filosofia vem sendo anunciada. Mas, agora, o avanço sem precedentes da ciência, especialmente da neurociência, confronta uma das grandes motivações da filosofia desde a Antiguidade: a busca pela certeza. Se a ciência fornece respostas exatas, o que sobraria para a filosofia discutir? Nada, na opinião de Hawking. Na resposta pública ao físico popstar, os filósofos Creston Davis e Santiago Zabala concordam que a filosofia que vira as costas para as descobertas da ciência, se ainda não morreu, está com os dias contados. Na filosofia do século 21, afirmam, a busca por certezas ou consensos não é mais seu objetivo primordial. Como diz Slavoj Zizek, “a filosofia na atualidade é uma disciplina bem modesta. Não resolve os problemas”.

Sem tentar ser a solução para tudo, a filosofia moderna se mostra útil na formulação de novas interpretações dos fenômenos sociais. Ela se volta para discutir eventos históricos e avanços tecnológicos e científicos, um campo fértil para questionamentos desconcertantes sobre o nosso papel na sociedade, os sistemas de governo, a relação do homem com as máquinas e o próprio livre-arbítrio. Como sempre fez, a filosofia ainda encontra espaço para apontar incoerências e aprofundar questões como o respeito aos animais, a ética do dinheiro, nossa responsabilidade diante da miséria no mundo e o direito de decidir a hora de morrer — como traz à tona um dos mais proeminentes pensadores da atualidade, Peter Singer.


Mais: duas perguntas em particular seguem fora da jurisdição da ciência — e, consequentemente, vão para o terreno da filosofia. A primeira é a natureza da nossa consciência. Por que e como se forma a percepção de cada pessoa de que ela é um único e irrepetível indivíduo? Descartes tinha razão quando compreendeu que o pensamento comprova a nossa existência, mas nem ele — nem ninguém — conseguiu explicar por que pensamos, afinal de contas. Por último, o mais abismal dos porquês: por que estamos aqui? Por que existe tudo isso em vez de um imenso e eterno nada? Cientistas estão longe da resposta, mas não deixam de persegui-la. E filósofos não se esquecem de seguir perguntando.



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